Mugabe denuncia <br> potências ocidentais

Carlos Lopes Pereira
A crise no Burundi, a guerra civil no Sudão do Sul e críticas ao Ocidente marcaram a 25.ª cimeira da União Africana (UA).
A reunião decorreu nos dias 14 e 15, em Joanesburgo, e tinha uma extensa agenda. Os líderes dos 54 países da África aprofundaram temas como a integração económica do continente, a livre circulação, a criação de uma zona de comércio livre. E abordaram questões ligadas à paz e à segurança, à dignificação da mulher, à formação dos jovens, à melhoria das estruturas de educação e de saúde, ao combate a doenças como a sida e o ébola, à emigração forçada de africanos para a Europa através do Mediterrâneo.
«Estas pessoas que fogem dos seus países não o fazem por escolha própria mas sim por desespero, na tentativa de alcançar uma vida melhor em outras partes do mundo», considerou a presidente da Comissão Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma, na sessão de abertura.
A diplomata sul-africana, citada pela Angop, felicitou os presidentes de Moçambique, Filipe Nyusi, da Namíbia, Hege Geingob, e da Nigéria, Muhammadu Buhari, bem como o primeiro-ministro do reino do Lesoto, Pakalitha Mosisili, recentemente eleitos através de eleições democráticas. E regozijou-se pelos progressos políticos verificados na Guiné-Bissau e na Serra Leoa.
O presidente em exercício da UA, Robert Mugabe, discursou na inauguração desta 25.ª cimeira africana. E, sem surpresa, criticou com severidade os países ocidentais e alguns dos seus dirigentes. Fustigou o antigo presidente norte-americano George W. Bush e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair pela agressão militar, invasão e ocupação do Iraque.
Conta a Jeune Afrique que o veterano líder do Zimbabué afirmou que «Little Bush» e «Little Blair» tinham uma única ideia na cabeça quando invadiram o país de Saddam Hussein: apoderar-se do petróleo iraquiano. Mugabe denunciou ainda o francês Nicolas Sarkozy e o italiano Silvio Berlusconi, comparsas menores nessa e noutras aventuras militares do imperialismo, como a destruição da Líbia pela NATO capitaneada pelos Estados Unidos.
Abordando um assunto actual em África, Mugabe criticou a limitação dos mandatos presidenciais. «Nós, africanos, estamos a pôr uma corda no pescoço quando dizemos que os nossos presidentes só podem cumprir dois mandatos. Se os povos querem que os seus dirigentes permaneçam mais tempo no poder, isso é também democracia», defendeu.
Noutras ocasiões, políticos e intelectuais africanos têm criticado a imposição aos estados africanos, pelo Ocidente, de «modelos» democráticos que pouco têm a ver com as realidades económicas, culturais e sociais e a história da África.

Sudão do Sul,
Burundi e TPI


A crise no Burundi, a pretexto de um terceiro mandato do presidente Pierre Nkurunziza, esteve presente nos debates da cimeira. A organização pan-africana exigiu o retomar do diálogo entre governo e oposição, no sentido de um consenso sobre a organização de eleições credíveis e da resolução política e pacífica da crise. A UA decidiu enviar de imediato para Bujumbura meia centena de peritos militares e observadores para supervisionar o desarmamento de milícias e outros grupos. E confiou o papel de mediador ao presidente tanzaniano Jakaya Kikwete, presidente em exercício da Comunidade da África do Leste.
Outro assunto debatido em Joanesburgo foi a guerra civil no Sudão do Sul. Desde Dezembro de 2013, partidários do presidente Salva Kiir e do antigo vice-presidente Riek Machar travam violentos combates. Fontes africanas indicam que a carnificina, num país produtor e exportador de petróleo, já provocou dezenas de milhares de mortos e dois milhões de deslocados ou refugiados. Alpha Oumar Konaré, antigo presidente do Mali, foi agora investido como enviado especial da UA para tentar solucionar o diferendo. E foi pedida uma reunião célere do «comité ad hoc de alto nível» para o Sudão do Sul, constituído pelos dirigentes de países das cinco regiões do continente – Argélia, Nigéria, Chade, África do Sul e Ruanda –, que vão apoiar os esforços de mediação da Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD), que agrupa oito países este-africanos.
Esta reunião da UA ficou assinalada por uma tentativa falhada do Tribunal Penal Internacional (TPI) de forçar as autoridades sul-africanas a prender o presidente do Sudão, Omar el-Béchir, e a entregá-lo em Haia. O tribunal acusa-o desde 2009 de crimes de guerra e genocídio cometidos na guerra do Darfur.
Ao contrário, diversas vozes em África denunciam o TPI por «só perseguir dirigentes africanos», identificando-o como um instrumento do Ocidente para ingerências nos países do continente.



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